sexta-feira, 23 de junho de 2017

TANTO FAZ, COMO FEZ




É preciso ter dúvidas. Só os estúpidos
 têm confiança absoluta em si mesmos.
(Orson Welles)

TANTO FAZ, COMO FEZ


Não é bem assim!?
Podemos dar-lhe as voltas que quisermos, a sua verticalidade acasmurrada mantém-se inalterável por ter sido gerado ao contrário. É como a doença da teimosia que, quando se nasce com ela, também se morre levando-a como companhia.
A iliteracia é um mal que persegue aqueles que nunca se interessaram pelo saber, esse mundo infindável, sem nunca pensarem que um dia lhes poderia ser útil na vida.
Surge sempre alguém a arrazoar que não teve possibilidades porque não foi p’rá escola, arrematando quase sempre, que tiveram de labutar para suprir a pobreza decorrente das condições em que nasceram e outras desculpas, cuja futilidade não consigo concordar, porque não penso que assim seja. Se a vontade de adquirir conhecimento nasce com a pessoa, ela consegue derrubar todas as dificuldades para o conseguir, ainda que parcialmente. Como é evidente, ninguém sabe tudo; ainda e sobra muito para poder desemburrar-se e desentupir, não toda, mas parte da sua ignorância.
Conheci uma rapariguinha, a Adélia, que era completamente cega e infelizmente deixou este mundo ainda nova, estava prestes a finalizar o curso de direito na Universidade de Coimbra; o Daniel, já falecido que dos seus membros, somente movia o braço esquerdo, era um bom escultor em madeiras, tirou um curso de Belas Artes, casou e constituiu família.
O Carlitos, com os globos oculares cinzentos por cegueira congénita, foi telefonista, agora é monitor de informática, repara computadores, é casado com uma simpática senhora, da qual tem uma bonita menina. O Alexandre, Alex como é conhecido, cegou aos dezassete anos – salvo o erro – em consequência uma explosão de dinamite numa pedreira onde trabalhava; é telefonista, tem um óptimo poder de dicção, é casado, com família constituída e como desporto lucrativo, também se dedica à venda de imóveis.
 O Guerra (Dr.), completamente invisual, formou-se em História pela Faculdade de letras da Universidade de Coimbra – morreu na sequência de uma queda da altura talvez de uns cinco metros, por nesse dia não ter trazido consigo o seu cão guia – nunca soube o motivo. O Diamantino, Tino, como lhe chamam, é cá da terra, trabalha na padaria Nova Freixo e dizem que é um empregado competente; os seus membros locomotores são imperfeitos, o que o obriga a trabalhar numa cadeira de rodas; também é casado e tem a sua própria família.
Muito mais casos se conhecem, que, se não fossem insuflados com a indómita vontade de saber para vencer, estes verdadeiros heróis da nossa sociedade nunca venceriam. E eles venceram!
Perante estas realidades, que não são únicas, os que usufruem dos seus cinco sentidos, naturalmente que não têm razão para desculpas.
É por estes e outros exemplos de meu conhecimento, que não consigo interiorizar justificações lamentosas para a existência da iliteracia.
Vamos lá a refazer o “S”.

António Figueiredo e Silva
Loureiro, 23/06/2017